8. ARTES E ESPETCULOS 6.3.13

1. MSICA  A ESTRELA NUNCA DORME
2. CINEMA  TALENTO SULFRICO
3. CINEMA  PURO MALTE
4. CINEMA  A SEGUNDA CHANCE  A MELHOR
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  BEM FEITO

1. MSICA  A ESTRELA NUNCA DORME
O artista que encarnou todos os personagens agora interpreta a si mesmo: quebrando anos de recluso, David Bowie revisita o melhor de sua obra em The Next Day.
SRGIO MARTINS

     David Bowie est vivo. Em 8 de janeiro, data em que completou 66 anos, o cantor ingls lanou Where Are We Now?, sua primeira composio em dez anos. Com tons sombrios que aludem  fase em que Bowie morou em Berlim, o single integra The Next Day, seu novo e excepcional disco, que ser lanado mundialmente na prxima semana. No dia 26 de fevereiro, Bowie apresentou o segundo single do lbum, The Stars (Are Out Tonight). Mais prxima do rock que ele fazia na dcada de 70, a cano ganhou um clipe estrelado pela atriz inglesa Tilda Swinton  cuja desconcertante semelhana com Bowie j era mote de sites proclamando a debochada tese de que os dois so a mesma pessoa. No clipe, Bowie e sua ssia interpretam um convencionalssimo casal ingls assombrado por celebridades que parecem monstros sados do cinema expressionista alemo. "As estrelas nunca dormem / Estejam mortas ou vivas", diz a cano. O cantor ainda no  esse astro fantasmagrico retratado em sua letra. Bowie est mais vivo do que nunca. The Next Day  seu melhor trabalho em trinta anos  uma slida coleo de rocks e baladas. Embora temperado por certo desencanto ("O que foi que voc fez", diz o cantor desesperado de Love Is Lost, para j na faixa seguinte  a berlinense Where Are We Now?  lanar a existencial indagao: "Onde estamos agora?"), o disco vibra com a vitalidade criativa que fez dele uma das personalidades mais imprevisveis do pop. 
     Bowie comeou a pr The Next Day de p em novembro de 2010. Chamou o produtor Tony Visconti, colaborador habitual por mais de quatro dcadas, para mostrar algumas composies em que vinha trabalhando. Visconti foi at um estdio no East Village, em Nova York, e j deparou com Bowie  frente de uma banda completa. O grupo passou a ensaiar e gravar a intervalos regulares, com alguns meses de descanso entre cada sesso. Foi uma operao sigilosa: todos que participaram da gravao assinaram acordos de confidencialidade, comprometendo-se a no vazar a notcia para ningum. Visconti pediu permisso para contar pelo menos  namorada sobre o trabalho em que estava envolvido. Bowie autorizou, sob a condio de que a namorada no contasse a histria a mais ningum. 
     O bem guardado segredo era o retorno de um artista que, depois de anos na linha de frente do pop e do rock, entrara em uma longa recluso. Bowie saiu de cena depois de passar mal nos bastidores de um festival de msica na Alemanha, em 2004, e se submeter a uma angioplastia para tratar uma obstruo coronariana. Desde ento, fez apenas duas rpidas aparies no palco: numa apresentao da banda canadense rcade Pire, em 2005, e, no ano seguinte, num show de David Gilmour, exguitarrista do Pink Floyd. 
     Mas no  qualquer artista que pode sumir por tanto tempo e ainda despertar excitao e interesse ao lanar um novo disco. David Bowie  a encarnao mais acabada da elusiva figura do pop star. Bandas como Beatles e Rolling Stones fizeram do comportamento um elemento to importante quanto a sonoridade na conquista das multides. Mas, enquanto a persona pblica de John Lennon ou de Mick Jagger permaneceu mais ou menos estvel. Bowie foi muitos: o roqueiro andrgino dos primeiros anos, o aliengena Ziggy Stardust, o cantor branco de soul music dos tempos de Young Americans, o cocainmano fascista Thin White Duke (que, em um lance temerrio, deu entrevistas proclamando Hitler como um dos primeiros rock stars). A msica de Bowie mudou de acordo com cada virada em seu personagem: do folk ao rock, da soul music ao krautrock, da disco ao drumn'bass parece no haver estilo que ele no tenha experimentado, o que justifica o j surrado apelido de "camaleo". Na segunda metade dos anos 70, quando se tornou parceiro de Brian Eno  um msico de famlia aristocrtica e pretenses experimentais , Bowie trouxe tambm uma aura intelectual para seu trabalho. A colaborao com Eno, alis, foi fundamental na trilogia alem de Bowie  os discos Low, Heroes e Lodger, nos quais a paisagem cultural de Berlim (veja o quadro abaixo) est muito presente. Essa qualidade mercurial de Bowie acabou se tornando lugar-comum no pop. At Beyonc j assumiu um personagem, Sasha Fierce. Mas Bowie foi mais longe  e chegou l mais cedo  nessa metamorfose radical nas mais estranhas personas. 
     A essa facilidade para viver personagens corresponde uma capacidade igualmente prodigiosa para se adonar criativamente do estilo de outros artistas. Bowie fez isso com os amigos Lou Reed e Iggy Pop  que renasceram para o showbiz no incio dos anos 70 graas  insistncia do cantor ingls em trabalhar com eles. Repetiu o feito com Nile Rodgers, lder do grupo de disco music Chic, cuja colaborao resultou no maior sucesso comercial de Bowie, o lbum Lets Dance, de 1983. Em The Next Day, porm, Bowie absorve a arte de Bowie. Com um reticente mas claro orgulho de seu passado, ele revisita o rock elegante e nervoso que fazia nos anos 70. Em Heat, msica que fecha o lbum, o cantor se define como "um observador, um mentiroso. Mentiras, encenaes: quem pode saber o que  verdade? David Bowie pode at ser mesmo Tilda Swinton. 

VANGUARDA DAS SOMBRAS
Vibrante, mas com tons de pesadelo e desespero, a cultura berlinense faz parte da paisagem espiritual do novo disco de David Bowie  e de outros momentos do pop.

Assim como Paris atraa artistas e escritores americanos e da Europa ocidental, no incio do sculo XX Berlim era um im para artistas do Leste Europeu e de pases nrdicos. A capital alem foi o centro irradiador do expressionismo, vanguarda cujas obras privilegiavam a deformao da realidade por uma lente paranoide.
O Gabinete do Dr. Caligari dirigido em 1920 por Robert Wiene,  um marco dessa tendncia  e seus enquadramentos esquisitos tm l sua influncia sobre The Stars, o clipe lanado na semana passada por David Bowie.
A Berlim do entreguerras foi a cidade dos cabars, com espetculos de revista carregados de perversidade e ambiguidade sexual. A obra do compositor Kurt Weill  parceiro musical do dramaturgo Bertolt Brecht  reflete essa cultura licenciosa, que foi capturada no cinema em O Anjo Azul (1930), com Marlene Dietrich.
Durante a chamada Repblica de Weimar  o governo parlamentarista do entreguerras , a cultura vanguardista de Berlim convivia com o ascendente esprito autoritrio do nazismo. O pintor e desenhista George Grosz retratou esse clima ao mesmo tempo fervilhante e opressivo. Suas imagens eram uma "bofetada de caos", na expresso do escritor blgaro Elias Canetti, que viveu em Berlim nesse perodo.
Depois da II Guerra, a Berlim dividida pelo muro se tornou uma espcie de capital da Guerra Fria, e assim foi retratada nos romances de espionagem do britnico John le Carr. Mas sua cultura libertina  agora embalada pelo punk e por uma precursora msica eletrnica  atraiu, nos anos 70, roqueiros como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed, que criaram canes e discos sobre a cidade. Berlim, disco de Lou Reed, pode at ser visto como um herdeiro do expressionismo: narra uma histria de marginalidade e perverso sexual, culminando em suicdio. 
Em Asas do Desejo (1987), cultuado por todos os modernetes nos anos 80, o cineasta Wim Wenders apresenta uma Berlim escura, pesada, mas cheia de leveza lrica  tudo isso ao som do rock soturno do australiano Nick Cave, que ento morava na cidade. 
A queda do muro, evento-smbolo do fim do comunismo, levou mais roqueiros britnicos  Alemanha. Roger Waters, ex-Pink Floyd, apresentou ao vivo o disco The Wall em Berlim, em 1990. E em Achtung Baby, parcialmente gravado em Berlim, o U2 celebra a recm-descoberta liberdade  e seus riscos  na cano Zoo Station; "Estou pronto para o que vier (...) / Pronto para a aposta / Pronto para largar o volante.


2. CINEMA  TALENTO SULFRICO
No filme O Quarteto, na srie Downton Abbey e no papel que lhe deu o Oscar em 1970, Maggie Smith  ao mesmo tempo adorvel e insuportvel  e sempre maravilhosa.
MARIO MENDES

     Maggie Smith praticamente entra em cena no filme O Quarteto (Quartel, Inglaterra, 2012), que estreia nesta sexta-feira no pas, sendo aplaudida pelo elenco. O aplauso  para a personagem que ela interpreta, Jean Horton, uma aposentada diva da pera que, em tempo de vacas magras, se v obrigada a viver numa casa de repouso destinada a outrora clebres nomes do mundo da msica erudita. Por l ela encontra a velha arraiga Cissy (Pauline Collins), que est nos primeiros estgios de demncia senil; o paquerador Wilf (Billy Connolly), alquebrado, porm fiel s mulheres e ao usque; e sobretudo o imponente Reginald (Tom Courtenay), o tenor com quem ela viveu uma intensa paixo, um brevssimo casamento e uma separao que partiu o corao de ambos. 
     Quando outro morador do lar de idosos, Cedric (Michael Gambon, numa daquelas canastrices deliciosas como s os palcos ingleses sabem proporcionar), prope que os antigos companheiros revivam, em uma noite de gala no asilo, seu maior sucesso nos palcos  o quarteto da pera Rigoletro , Jean reage com fria de prima-dona. Insegura com o enfraquecimento dos dotes vocais e a presena de uma antiga rival que ainda atinge as notas mais altas, ela se volta contra os amigos. No que eles no estejam acostumados com isso. 
     Primeira empreitada na direo do ator Dustin Hoffman  alis, um hbil condutor de seus colegas , O Quarteto tem parentesco com outros filmes recentes que tm em vista plateias, digamos, mais maduras, a exemplo de O Extico Hotel Marigold (de cujo elenco Maggie, infalivelmente, faz parte) e Um Div para Dois. Juntos, os protagonistas de O Quarteto totalizam 296 anos  e a soma iria s alturas se considerado o elenco de apoio, formado na maioria por msicos e cantores lricos britnicos que fizeram carreira entre as dcadas de 50 e 80. O roteiro, previsivelmente, se encarrega de passar a mensagem de que, apesar da decadncia fsica e mental imposta pela velhice, sempre  tempo de perdoar, se reconciliar e, claro, tentar ser feliz. Mas no h o que temer: Maggie, a corrosiva, est l para avinagrar o excesso de otimismo, ainda que seu desempenho seja um tantinho menos cido do que tem sido seu registro nos ltimos tempos. 
     Aos 78 anos, Maggie  ou dame Maggie, conforme o ttulo conferido a  ela em 1990   uma das mais aclamadas atrizes inglesas de sua gerao e vive atualmente um grande momento profissional, em especial devido ao sucesso da srie Downton Abbey. No programa, ela esbanja a verve e a tarimba adquiridas em uma carreira iniciada no teatro, em 1952, para encarnar a irresistivelmente esnobe Lady Violet, responsvel por algumas das melhores frases j ditas na TV  mais afiadas que espada ninja, elas at se tornaram sucesso nas redes sociais (veja alguns exemplos nesta pgina). Alis, traos de Lady Violet j estavam presentes na insuportvel condessa Trentham que ela interpretou em Assassinato em Gosford Park, escrito pelo mesmo Julian Fellowes que  o criador de Dowmon Abbey. 
     "Sou conhecida por ser um pouco cida com certas pessoas. Por isso sou to boa para fazer velhas senhoras cidas", assumiu a atriz numa entrevista recente. Modstia: desde o incio da carreira, Maggie j era craque em retratar jovens damas sulfricas. Por exemplo, a professora custica e avanadinha Jean Brodie, o papel que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz e pode ser conferido no DVD de A Primavera de uma Solteirona (Classicline), que acaba de ser lanado e  item imprescindvel para os smithmanacos. Quem no conhece Downton Abbey, cuja quarta temporada deve estrear em setembro na Inglaterra, tambm pode remediar essa falha grave: a srie ser exibida desde o incio, a partir de 4 de abril, no canal pago GNT. Juntas, Lady Violet, Jean Brodie e Jean Horton so provas mais que suficientes de que, quando Maggie est em cena, o aplauso  inevitvel. E o vinagre, mais ainda. 

 Eu no tenho mais nada. Apenas minhas roupas, algumas jias e um quadril que di demais.

 Maquiagem? Ela no precisa disso: mais rebocada do que ela est, impossvel.

  incorreto dizer que Da Vinci  o maior pintor italiano. A resposta certa  Giotto, porque  o meu favorito.

 Minha profisso  colocar cabeas maduras sobre ombros jovens.

 No sou romntica. Mas at eu entendo que o corao no existe somente com o propsito de bombear o sangue.

 Minha criada se demitiu para se casar. Como ela pde ser to egosta?

 Judas estava apenas tentando ajudar.

  No seja derrotista, minha cara. Isso  to classe mdia.


3. CINEMA  PURO MALTE
Em A Parte dos Anjos, de Ken Loach, um delinquente escocs prova usque pela primeira vez  e v a luz.

     A vida de Robbie, o protagonista de A Parte dos Anjos (The Angels' Share, Inglaterra/Frana/Blgica/Itlia, 2012), que estreia no pas nesta sexta-feira, foi sempre s feiura. Mas, quase ao mesmo tempo, ela passa a incluir duas coisas de beleza ofuscante: o primeiro filho  e o usque escocs. Robbie (Paul Brannigan)  levado a uma destilaria, junto com outros delinquentes de Glasgow, por um assistente social de bom corao (o encantador John Henshaw). A trupe de marginais inclui, alm do pavio-curto Robbie, a mo-leve Mo (Jasmin Riggins), o gigante gentil Rhino (William Ruane) e o burrssimo Albert (Gary Maitland), que, no obstante ter metade das lmpadas queimada, est sujeito a lampejos de genialidade quando alguma das outras se acende. Iniciados nos mistrios da bebida pela guia da destilaria, uma loirinha animada, esses filhos dos cortios se sentem adultos e civilizados quando esto com um copo na mo, treinando-se para identificar aromas e distinguir entre a colorao do carvalho europeu e a do americano. Para Robbie, o exerccio vira paixo: ele se descobre um provador nato. E, nesse dom, v a porta pela qual poder sair de sua vida de violncia e frustrao e tornar-se um bom namorado e um bom pai. Antes, porm, ele ter de se esgueirar por um labirinto de divertidas e coloridas complicaes envolvendo um usque rarssimo, um leilo milionrio, quatro kilts arranjados s pressas e alguma racionalizao: se todos os anos um tantinho do usque nos tonis sobe mesmo aos cus ("a parte dos anjos"  o jargo para a perda natural por evaporao), que mal pode haver em apressar um pouco esse processo? 
     As circunstncias de Robbie e seus amigos so to desesperadoras quanto as de qualquer outro personagem retratado pelo diretor Ken Loach em suas quase cinco dcadas de carreira, todas dedicadas ao exame sincero, repleto de empatia, da injustia social. Mas, assim como em  Procura de Eric, de 2009, Loach encontra aqui uma veia brejeira pela qual narrar tantas desventuras. Da cena inicial, em que se v como o estuporado Albert foi parar diante do juiz,  volta triunfante dos amigos a Glasgow, na qual dois policiais os submetem a uma revista indecorosamente detalhada, Loach ora brinca com a tradio inglesa do filme de golpe, ora faz comdia pura e simples. O que o autoriza a essa leveza  o fato de que Robbie tem o que a maioria dos seus personagens no tem: algum que acredita nele o bastante para dar-lhe uma chance, e algo em que ele prprio acredita. No por acaso esse algo  o usque, que at a visita  destilaria ele nunca havia provado. Indivduos desenraizados do lugar onde vivem tm muito menos chances de florescer, pondera o diretor. E se para regar um germe de redeno  preciso virar um copo (ou algumas garrafas) para o santo, que seja: um milagre no tem preo. 
ISABELA BOSCOV 


4. CINEMA  A SEGUNDA CHANCE  A MELHOR
Pierce Brosnan e Trine Dyrholm iluminam uma comdia romntica meio desajeitada, mas que irradia simpatia.

     A diretora dinamarquesa Susanne Bier no  de sutilezas. Em Amor  Tudo o que Voc Precisa (Love Is All You Need / Den Skaldede Frisor, Dinamarca/Sucia/Itlia, 2012), o marido de Ida  um grosseiro sem nada que o redima: pego em flagrante com outra, recusa-se a admitir que trair a mulher enquanto ela est no oncologista  falta de sensibilidade. Da mesma forma, no resta dvida de que a filha de Ida est indo rpido demais para o altar: arrumando a vila no sul da Itlia onde a festa vai acontecer, o noivo e o rapaz que o est ajudando esto obviamente caindo de amores um pelo outro. E est clarssimo tambm que, quando Ida e Philip, o pai do noivo, literalmente se trombam no estacionamento do aeroporto de Copenhague, rumo  Itlia, a mtua e intensa antipatia inicial tomar o rumo que tomam todas essas antipatias de cinema  o da paixo. E, ainda assim, Amor irradia simpatia. Susanne no  sutil, mas seus sentimentos so calorosos, e seus dois atores principais so irresistveis tanto um para o outro como para quem acompanha a vacilante dana de revelao em que eles se enfronham. Tome-se como exemplo a cena em que, vendo Ida sair nua do mar, Philip registra no a cicatriz no seio operado ou a calvcie de quimioterapia que ela escondia sob a peruca: o que Pierce Brosnan enxerga em Trine Dyrholm  uma sereia, e o que ela constata nele  uma promessa  e, graas ao desempenho de magnficas delicadezas de Brosnan e Trine,  isso que tambm a plateia v, aquele momento intangvel em que, ainda que os protagonistas no se dem conta disso, sua prpria substncia se altera. 
     Uma das pioneiras do espartano movimento Dogma, Susanne foi tambm das primeiras a abandon-lo: sua vocao verdadeira  o melodrama, como atestado em dois sucessos slidos do circuito alternativo, Depois do Casamento e Em um Mundo Melhor. Habituada a traos firmes e cores fortes, ela patina nos meios-tons e pinceladas breves da comdia romntica, e confunde o uso liberal de tomadas fotognicas das paisagens sorrentinas (e de Brosnan, que continua lindo de morrer) com demonstrao de graciosidade. Mas  salva no s pelo par central, como pela vocao que em outros sentidos trabalha contra ela. Ainda que queira ser ligeira no timbre, Susanne no consegue largar do cerne duro da histria: a decepo que  chegar  meia-idade vivo e s, como Philip, ou solitria num mau casamento, como Ida  e a resplandecncia de descobrir que nem tudo o que  ruim precisa ser definitivo. 
ISABELA BOSCOV


5. VEJA RECOMENDA
DISCO
GET UP! BEM HARPER E CHARLIE MUSSELWHITE (UNIVERSAL)
 O cantor e guitarrista Ben Harper, 43 anos, remoou a linguagem do blues, ao qual adicionou elementos de rock e gospel. Guitarrista e mestre da gaita de boca, Charlie Musselwhite, 69 anos,  um nome de ponta do eletrificado blues de Chicago. Os dois se conheceram em 1997, na gravao de um disco do bluesman John Lee Hooker. Gel Up!, mais do que uma coletnea de grandes canes, acena com uma redeno artstica da carreira de Harper, que havia tempos lanava discos desleixados. O guitarrista assina as dez faixas do lbum  algumas em parceria com o guitarrista Jason Mozersky ou com o baixista Jesse Ingals, ambos da Relentless 7, sua banda de apoio. Em diversos momentos, Harper canta com a fria de um bluesman esfaimado (em I Don't Believe a Word You Say e na faixa-ttulo). Em outras faixas, sua voz tem aquela dor que somente um estudioso do blues consegue atingir  e aqui elas atendem pelos nomes de Don't Look Twice e She Got Kick. Musselwhite no apenas guia o retorno de Harper ao blues. Sua gaita rende momentos de alta combusto, como se pode perceber em I'm In, Im Out, Im Gone, a melhor cano do disco. 

CINEMA
ATRS DA PORTA (THE DOOR, HUNGRIA/ALEMANHA, 2012. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ)
 Na Budapeste da dcada de 60, com as cicatrizes da II Guerra ainda abertas e  sombra opressiva da Unio Sovitica, uma aspirante a escritora se instala num apartamento novo com o marido e, para ter mais tempo para se dedicar ao seu livro, ganha a ajuda de uma empregada excntrica, Emerenc  que dita as regras da casa sem admitir palpites da dona,  mais seca que giz, varre a calada obsessivamente, conta com absoluta casualidade os fatos tenebrosos de seu passado e nunca, jamais, deixa que algum ultrapasse a porta da casinha em que mora. Emerenc  um enigma que exaspera Magda, a escritora, mas ao qual ela no consegue deixar de se afeioar. O inesperado  que a empregada, a despeito de si mesma, retribui a afeio. Os dilogos deliciosos e o jogo entre duas grandes atrizes  Helen Mirren e a alem Martina Gedeck  so os pontos altos do filme do veterano cineasta hngaro Istvn Szab, que se baseia no romance autobiogrfico da autora Magda Szab (nenhum parentesco entre os dois). Ressalvas apenas ao jeito de produo para TV do filme, e  necessria mas desajeitada opo pelas falas em ingls, que resulta ora em sotaques enrolados, ora em dublagens ruins, conforme o ator. 

LIVROS
CONQUISTA SOCIAL DA TERRA, DE EDWARD O. WILSON (TRADUO DE IVO KORYTOVSKI; COMPANHIA DAS LETRAS; 392 PGINAS; 54 REAIS)
 No se assuste o leitor com o ttulo: este livro nada tem a ver com reforma agrria. O americano Edward O. Wilson  um dos mais influentes tericos da biologia contempornea. Nos anos 70, foi um pioneiro da ento controversa sociobiologia, disciplina que buscava explicar o comportamento humano a partir de bases biolgicas. A Conquista Social da Terra leva essas pretenses a novas alturas: Wilson prope que a cincia est mais bem equipada do que a religio e a filosofia para responder s trs perguntas que servem de ttulo a um quadro de Gauguin: de onde viemos? O que somos? Para onde vamos? O ttulo do livro diz respeito  conquista do planeta por espcies que vivem em sociedade e cujos indivduos mostram um alto grau de cooperao entre si: seres humanos e insetos sociais, como formigas e abelhas. Em temas complexos como moral e religio, Wilson pode ser superficial. Mas sua fascinante reconstituio comparativa da evoluo de homens e insetos  clara e cheia de detalhes iluminadores. 

HISTRIAS DA OUTRA MARGEM, DE NAGAI KAFU (TRADUO DE ANDREI CUNHA; ESTAO LIBERDADE; 128 PGINAS; 29 REAIS)
 O escritor Tadasu Oe no gosta de cinema. Assistiu a projees de um antigo cinematgrafo, em 1897, e nos anos 1920 retornou ao cinema para ver o que considerou ser uma adaptao ruim de um conto de Maupassant. Essas duas experincias insatisfatrias bastaram para que desenvolvesse uma atitude de altivo desprezo em relao aos filmes  na qual transparece uma viso no propriamente hostil, mas reticente da modernizao de Tquio nas primeiras dcadas do sculo XX. O protagonista e narrador de Histrias da Outra Margem revela j a um tema caro  literatura japonesa do perodo. Mas Nagai Kafu (1879-1959), um dos nomes fundamentais do modernismo japons, oferece bem mais do que o proverbial contraste entre tradio e novidade: sua narrativa  uma imerso na vida cultural e na bomia de Tquio, com sebos de livros raros na vizinhana de bordis. O centro dramtico  um conflituado caso de amor de Tadasu. Ao mesmo tempo, o leitor acompanha os trabalhos do personagem escritor na composio de um romance, em um delicado jogo de espelhos  uma obra de fico dentro da outra. 

BLU-RAY 007  OPERAO SKYFALL (SKYFALL, INGLATERRA/ESTADOS UNIDOS, 2012. Fox/Sony)
 Um filme de 007 que comea com o agente morrendo (ou quase isso) ao final da sequncia de abertura e termina com um enfrentamento no na toca do vilo, mas na do prprio heri: nada como subverter as tradies para retornar  essncia original,  o que demonstra o diretor Sam Mendes nesta excepcional aventura de James Bond  a terceira com Daniel Craig, e aquela em que ele ameaa para valer a primazia de Sean Connery. Musculoso, afinado com o novo cenrio geopoltico e exato na escolha do elenco, a comear pelo vilo de Javier Bardem, Operao Skyfall devolve o personagem  glria valendo-se dos elementos mais esparsos. Por exemplo, o Aston Martin DB5 celebrizado por Connery e engenhocas que, alm de poucas, chocam pela simplicidade. Explicam os extras que dissecam a produo: num mundo em que todos carregam aparelhos fabulosos no bolso, para sacudir o espectador  preciso faz-lo imaginar o contrrio  como seria estar em perigo sem ter nada a que recorrer. Exceto,  claro, o fato de ser James Bond. 


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
5. The Walking Dead  O Caminho para Woodbury  Robert Kirkman e Jay Bonasinga. GALERA RECORD
6. The Walking Dead  A Ascenso do Governador  Robert Kirkman e Jay Bonasinga. GALERA RECORD
7. Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA 
8. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
9. A Travessia  William Young. 
10.   Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 

NO FICO
1. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 
2. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO
3. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
4. O Prncipe  Nicolau Maquiavel. VRIAS EDITORAS
5. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA 
6. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR
7. A Outra Histria do Mensalo Paulo Moreira Leite. GERAO EDITORIAL 
8. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA 
9. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 
10. O Livro da Filosofia  Vrios. GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
2. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
3. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
4. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
5. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
6. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE
7. Os Oito Pilares da Prosperidade  James Allen. CLIO EDITORA 
8. A Arte da Guerra  Sun Tzu. VRIAS EDITORAS
9. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA 
10. Manual dos Jovens Estressados  Augusto Cury. PLANETA 


7. J.R. GUZZO  BEM FEITO
     O bem-amado Estdio do Pacaembu, santurio do futebol paulista desde sua inaugurao, em 1940, viveu na semana passada uma noite triste. Com os portes fechados e seus 40.000 lugares vazios, o Pacaembu serviu como tribunal para um caso raro de aplicao de justia imediata contra a criminalidade no futebol brasileiro de hoje. Serviu, tambm, para expor em praa pblica o que pode ter sido a pior humilhao j vivida pelo Sport Club Corinthians Paulista em seus 102 anos de existncia. Ali, como punio preliminar para o assassinato de um garoto boliviano de 14 anos de idade, morto na semana anterior por delinquentes da torcida organizada do Corinthians num jogo pela Taa Libertadores da Amrica na Bolvia, o time "da casa" foi obrigado a jogar sem a presena do pblico.  uma vergonha que carimba o clube, perante o futebol mundial, como cmplice ativo de criminosos.  tambm um caso em que se pode dizer com certeza: "Bem feito".
     O Corinthians j comeou a pagar, em dinheiro, a primeira parte da punio aplicada pelas autoridades esportivas latino-americanas. Ficou sem os 3 milhes de reais, ou at mais, que iria receber com a venda de ingressos na fase inicial da competio, e ter de devolver o valor das 85.000 entradas que tinha vendido antecipadamente. No julgamento definitivo do caso, mais adiante, o castigo pode ficar maior. Seja qual for a pena final, ser pouco: se jogasse na Europa, o Corinthians estaria simplesmente excludo de qualquer competio internacional durante anos a fio. O fato realmente animador, na verdade,  o reconhecimento oficial de que o responsvel por atos criminosos cometidos em partidas de futebol  o clube cuja torcida pratica a delinquncia. Do ponto de vista penal, a responsabilidade pela morte do garoto Kevin Espada, no jogo disputado em Oruro,  de quem o matou; essa  uma questo para as autoridades da Bolvia, que j colocaram na cadeia, desde a noite do crime, doze integrantes da torcida Gavies da Fiel. De todos os outros pontos de vista, a responsabilidade , sim, do Corinthians. 
     O clube, a Rede Globo (que conta com o Corinthians como um pilar de sua audincia) e boa parte da mdia esportiva falaram muito em punio "injusta". Sustentam que o clube no tem nada a ver com a "conduta isolada" de torcedores marginais.  falso: o Corinthians tem tudo a ver, na pessoa do seu presidente, Mrio Gobbi (um delegado de polcia, por sinal), e de todos os demais diretores da rea de futebol profissional. No apenas agem em cumplicidade aberta com os marginais das torcidas organizadas, mas garantem a sua existncia  abrem as salas de diretoria para elas, financiam suas atividades e do cobertura para os crimes que cometem. Uma dessas torcidas chama a si prpria de Pavilho Nove, em homenagem  sinistra e hoje extinta priso do Carandiru, em So Paulo; um dos seus fundadores  o antecessor de Gobbi na presidncia, Andrs Snchez. Nada poderia mostrar to bem as suas almas como a reao que tiveram diante do assassinato de Kevin. Fora umas poucas palavras apressadas para "lamentar" o fato, s pensaram numa coisa: quem vai nos ressarcir dos prejuzos? E o garoto  quem vai ressarci-lo pela perda da sua vida? O doutor Gobbi? 
     O clube, atravs da sua torcida de delinquentes, pode agora associar-se a um segundo crime  o de obstruo da Justia. Um advogado da Gavies fez, de repente, a descoberta milagrosa de um culpado dos sonhos: com o aval prtico da Rede Globo, apresentou um garoto de So Paulo como sendo o autor do crime. Por uma dessas coincidncias extraordinrias da vida, o rapaz  menor de idade  e portanto est livre, pela lei brasileira, de receber qualquer tipo de punio. Foi uma coisa estranhssima: o advogado, em vez de defender seu cliente, fez tudo para provar que ele era o culpado. A ideia, nessa estratgia genial, era obter a soltura imediata dos doze corintianos presos na noite do crime, entre os quais um dos principais chefes da Gavies. Aconteceu, obviamente, a nica coisa que poderia ter acontecido: as autoridades bolivianas no tomaram o menor conhecimento da histria, pois est na cara que no podem soltar todo mundo s porque apareceu no Brasil, ou na Cochinchina, uma confisso que "muda tudo". 
     Sem uma atitude de verdadeiro respeito pela decncia, ou pela lei, no adiantar nada distribuir a torcedores, para ser mostrados na Globo, cartazes pedindo "paz nos estdios". S machucando os clubes com penas pesadas seus diretores talvez comecem a se afastar da bandidagem. 


